5.5.10

O pior nhoque do mundo

Confeccionar alimentos sempre foi uma arte de inúmeras habilidades. Cozinhar bem envolve um paladar aguçado, criatividade, noções de tempero e do resultado da mistura deles com os ingredientes. Apesar das milhares de receitas para diversos pratos, nem sempre segui-las garante uma refeição satisfatória. E foi seguindo uma receita e implementando “toques” que eu comi o pior nhoque do mundo, feito pela minha ex-cunhada.
Era o segundo dia de casado do meu irmão. Como esperado, domingo era o dia de um prato “pesado”, especial para exagerarmos. As dez da manhã a preparação parecia fantástica. Ao meio dia, a fome dava uma aparência ainda melhor para o que estava sendo feito. As duas da tarde, três caminhões já tinham descarregado farinha na casa dele. Isso mesmo: farinha! Ela estava colocando tanta farinha no nhoque, que até a farinha que já estava nele recusava mais farinha. O pó de farinha que subia do balcão, não era daqueles clássicos movimentos de “chefs” que pegam uma porção mínima de farinha com três dedos e delicadamente solta sobre a comida. Era a própria farinha assoprando o excedente!
A fim de deixar claro que não estou exagerando sobre a quantidade de farinha que ela colocou, vou ressaltar alguns pontos:
  • Toda vez que eu ouvia um barulho de tosse, eu desconfiava que era uma fatia de massa de nhoque se engasgando com a farinha
  • Algumas “bolinhas” de nhoque pareciam estar vestindo dois agasalhos de lã
  • Nem a farinha nem o nhoque acreditavam que ela estava colocando mais farinha na receita.
  • Tinha farinha desempregada na situação.
  • A própria farinha já estava absorvendo farinha.
É evidente que o nhoque só poderia ter ficado duro. Com a cozinha parecendo um armazém de cocaína que acabou de ser estourado pela polícia, o resultado não poderia ser diferente. O nhoque estava tão duro que pedra no olho de criança machucaria menos. Também com o intuito de esclarecer o quanto o nhoque estava duro, algumas observações são essenciais:
  • Toda hora que você ia enfiar o garfo nele, o garfo desviava e acertava o prato. Havia um certo coro musical formado pelo barulho dos talheres batendo no prato. “Tim, tim, tiiim! Timtim, tim, tiiim!”
  • Para que isso não acontecesse toda vez, era necessário mirar bem, o que normalmente me fazia sentir como um nativo pegando peixe com a lança.
  • Era possível saber que outra pessoa já estava mastigando o nhoque ao ver seus olhos lacrimejando.
  • Separar dois ou mais nhoques grudados só com o auxílio de picareta.
  • Mastigar o prato parecia menos doloroso.
  • Se no dia seguinte eu tivesse um exame de raio-x marcado, certamente o médico levantaria a suspeita de pedra nos rins.
  • O nhoque parecia blindado.
  • Amassar uma caixa-preta de avião seria um desafio aceitável depois de comer.
Embora fosse evidente a reação negativa dos convidados através do silêncio perturbador – cortado apenas pelos tilintares dos garfos brigando para perfurar o nhoque –, uma pessoa se destacava ao elogiar a comida. Meu irmão, óbvio. Era o segundo dia de casado e é obrigação do marido elogiar a despeito de sua opinião sincera. No entanto, eu achei o real significado de todos os elogios feitos por ele.
  • “Hum... nunca comi um nhoque tão consistente”, significa: “Hum... nunca comi um nhoque tão duro!”
  • “Seu molho ficou bastante leve”, significa: “A farinha absorveu todo o molho, né?”
  • “Amor, tá uma delícia, viu?”, significa: “Se eu comer isso a vida inteira, já quero o divórcio.”
  • “Só para eu não errar quando for fazer, quanto de farinha você colocou?”, significa: “Eu nunca vou errar!”
  • “Huum. Já estou pensando quando vai fazer de novo”, significa: “Não vou vir para casa nesse dia.”
  • “Eu nunca comi um nhoque assim!”, significa: “Eu nunca comi um nhoque assim!”
No final do domingo, eu fui embora. Ainda havia quantidade suficiente de nhoque para quatro dias e, de fato, meu irmão o comeu quatro dias seguidos. Até hoje ele luta para perder o peso que ganhou nesse dia. Além disso, confesso que já tive várias vezes a impressão de ter visto nhoque como peso de papel na casa dele, peso para a porta...
Realmente... esse foi o pior nhoque da minha vida.

2 comentário(s) sarcástico(s):

  1. Adoooooro mulher q quer se livrar do marido, logo após o casório!... Só nao me diz que o divórcio se deu após os quatro dias de comilança da iguaria!

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  2. É por isso que eu não sei cozinhar e nem quero saber. Quem quer bem feito, faz; não manda, né não?
    Quem sabe o macho alpha da casa não teria feito um nhoque melhor...
    A pobrezinha se mata na cozinha pra agadar o marido e a família dele pra ainda vir um tal de Gustavo passar 3 dias rindo enquanto escreve o post sobre o pior nhoque do mundo.

    ai ai

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