Aquele no Dia de Finados
3.11.08
Por Gustavo Scussel em Aqueles

Logo a seguir ao Dia de Todos-os-Santos, a Igreja Católica celebra o Dia dos Mortos, Dia dos Fiéis Defuntos ou Dia de Finados. Os cristãos rezavam pelos falecidos desde o século II, visitando os túmulos dos mártires para rezar pelos que morreram. Ainda que seja uma data para lembrar e rezar para todos os mortos, algumas pessoas têm a sorte de lembrar e comemorar o aniversário de outra pessoa nesse dia.
Está claro que repetir essa introdução como uma forma de explicar o significado dessa data para outra pessoa é um tiro no escuro. Face a isto, elas muitas vezes ficam triste por achar que o dia que você nasceu não foi uma data legal. A fim de quebrar o gelo da explicação, freqüentemente comento:
- É estranho chamar de Dia dos Fiéis Defuntos por que não importa o quanto você quer que eles sejam fiéis, assim que um morto tiver a oportunidade, ele vai levantar e dizer: “Quer saber, cansei de ser morto. Fui fiel à minha mulher, ao meu dentista, mas não vou ficar nesse túmulo sempre não.”
Com toda a certeza, muitas pessoas pensam que você está brincando com elas ao responder que nasceu no Dia dos Mortos. Da mesma forma que a cobra mais rápida do mundo, elas oscilam entre a idéia de acreditar ou não que isso seja verdade. No momento em que estava conhecendo uma mulher, ela assustou e perguntou:
- Espera aí! Você nasceu no dia dos mortos? Sério? Como assim?
- Vou te explicar sem falar sobre cegonha: fila rápida de reencarnação.
Em essência, essa data interfere radicalmente na forma como outras pessoas vêem ou imaginam como seja seu aniversário e seu dia, fazendo até com que elas acreditem que alguma coisa possa realmente ser diferente. Conversando com um amigo há poucos dias, ele me perguntou:
- Mas, Gustavo, me explica uma coisa: de qualquer maneira sua família anima a cantar “parabéns pra você” naturalmente?
- Anima, mas na verdade é um pouco diferente. É mais ou menos assim: “Parabéns pra você... Pai nosso que estais no céu...”
Inopinadamente a dúvida continua na cabeça de algumas pessoas, que buscam minuciosamente alguma contradição no que você diz para finalmente dizerem que elas não caíram na mentira. Ainda conversando com o amigo que perguntou sobre o “parabéns pra você” e recuperando-se da risada, ele voltou a perguntar investigativamente:
- Vai fazer o que o dia todo, Gustavo?
- O dia todo eu não sei, mas vou alugar e assistir “Ghost – Do Outro Lado da Vida”.
À primeira vista, a data pode influenciar em certos aspectos que seus amigos nunca vão notar de primeira, mas que podem comentar em segunda instância. Se você ver qualquer ente com dinheiro na mão, sabe que seu presente vai ser diretamente em dinheiro, contudo não vai ser a parcela total, apenas dez ou vinte reais. O restante vai para as flores que chegam a custar quase o preço de um bacalhau na Sexta-Feira da Paixão. Mostrando curiosidade sobre esse aspecto, outro amigo perguntou:
- Já aconteceu isso com você?
- Não, não...
- Menos mal então.
- Eu não cheguei a ganhar nem os vinte.
Por outro lado, mesmo que não haja dúvida sobre a veracidade da sua data de nascimento, uma pergunta ainda é universal quanto a datas comemorativas. Na véspera do meu aniversário, um amigo perguntou:
- E aí, vai fazer festa?
- Provavelmente não mas, se fizer, vai ser depois das seis. Mais cedo que isso, ninguém vai bêbado ao cemitério.
Em suma, fazer aniversário no Dia de Finados não muda radicalmente a sutileza e idéia de se comemorar o aniversário de alguém. Mesmo que seja uma data que algumas pessoas odiariam nascer, é uma data como outra qualquer, onde sua família ou seus amigos próximos vão estar com você e compartilhar a alegria de tão bela data – seu nascimento.
