Relacionada historicamente com a festa pagã do solstício de verão, as Festas Juninas ou santos populares é uma celebração brasileira e portuguesa de origem européia. Segundo o calendário juliano, era celebrada no dia 24 de junho e foi cristianizada como “festa de São João.” Em virtude de tamanha comemoração, nosso contato com as Festas Juninas se dá muitas vezes na pré-escola.
Entre todas as características desta festa, a primeira delas que somos submetidos é se vestir de acordo. Nos colocam uma camisa xadrez, chapéu de palha e depois desenham um bigodinho. No entanto eu nunca entendi por que algumas meninas iam de bigode também. Eventualmente eu pensava que elas acordavam, lavavam o rosto e depois faziam a barba. Hoje entendo por que os pares delas sempre tinham os dois dentes da frente separados. Além disso elas não gostavam de receber ajuda, pelo contrário: ficavam com muita raiva quando eu tentava apagar com “errorex” o bigode delas. É provável que não apenas eram mal agradecidas como também egoístas. Depois de pedir para metade da minha sala de aula um pincel atômico, um dos meus amigos chama minha atenção:
- Gustavo, eu acho que aquela menina ali tem um. Peça para ela te emprestar.
- Eu já pedi, mas ela disse que não tem. Eu acho que é mentira. Olha, está “na cara” que ela tem!

Da mesma maneira que as vestimentas dessa festa, a quadrilha também tem um padrão. Não é certo, mas a maioria dos pais vêem ela apenas como a parte divertida do evento. Entretanto, a dança serve para identificar algum possível desvio de personalidade nas crianças. Durante minha primeira quadrilha no colégio, assim que o animador disse “olha a cobra”, um dos meus conhecidos não só criou um alvoroço como também começou a gritar freneticamente “cadê”, a fim de encontrar ou o animal ou o órgão, que ao acaso, não parecia ser o dele. Logo depois o animador avisou o “beijinho-doce” e não pude perder a oportunidade de comentar com um amigo que estava ao meu lado:
- Eu acho que não vai ser doce para quem estiver dançando com a menina de bigode.
Eventualmente essa parece ser a época perfeita para soltar “bombinhas.” Também parece ser ótima para que algumas crianças percam completamente a noção de segurança e responsabilidade. No segundo ano de festa junina, alguns alunos das séries mais avançadas decidiram estourar traques nos bolsos de trás das calças dos meninos menores. Assim como o boi escolhe o toureiro mais fraco para acertar, os alunos maiores escolhem as crianças que têm predisposição à obesidade para fazer “bullying”. Após darem gargalhada com os estouros e o susto da vítima, me aproximei dele e disse:
- Você está bem? Isso já aconteceu comigo, eu sei como é.
- Eu estou bem. Eles só fazem isso comi...

A fala dele foi interrompida por mais um estouro e um salto no banco. Completei, ainda segurando a risada:
- Eles esqueceram de acender um traque!
Graças a televisão, grande parte das datas comemorativas e alguns alertas são inevitáveis à nossa atenção. Assistindo TV com um grupo de amigos, o silêncio se completou com uma propaganda avisando sobre o risco de se soltar balões durante as comemorações das festas juninas. Imediatamente comentei:
- Não é estúpido passar essa propaganda agora? Eles deveriam avisar sobre isso o ano todo! Talvez evitasse que algum padre desse mal exemplo.
Em suma, nosso primeiro contato com as festas juninas muitas vezes se dá na pré-escola. Entre as tradições que envolvem vestuário, dança e até diversão, encontramos sinais completamente opostos ao que realmente são à primeira vista. Não podemos no entanto, deixar que alguns alertas tenham prioridade em apenas certas épocas do ano.