Aquele com toda sinceridade


A sinceridade, como virtude, está presente naquele que se manifesta no momento adequado e de forma conveniente à outra pessoa o que fez, o que viu, o que pensa e o que sente com clareza e respeito a sua situação ou a dos demais.
Quando eu era pequeno minha mãe me preparava vitamina todos os dias. Como toda criança normal, eu não gostava de beber aquilo. Depois de adquirir confiança em mim, ela passou a me deixar sozinho na cozinha com a vitamina. De fato, na primeira vez que fez isso, a oportunidade se mostrou ótima para virar completamente aquele copo na pia. É provável que daquele dia em diante eu não teria mais que me preocupar com a vitamina, contudo comecei a me sentir péssimo. A fim de acabar com o peso na minha consciência, pedi desculpas à minha mãe, contei o que havia acabado de fazer e pedi uma nova vitamina. Desde então continuei melhorando meu ponto de vista em relação a sinceridade.
Eventualmente a amizade é uma relação aonde todas as virtudes podem ser aprimoradas. Estar com pessoas e entender o mundo delas é fantástico, principalmente quando você sente confiança na outra pessoa. Há algum tempo, caminhando com alguns amigos, um deles começa a imaginar um cenário de violência logo após ver um grupo suspeito atrás de nós. A vitória seria nossa se lutássemos juntos. Um dos meus amigos, notando meu silêncio, perguntou:
- Gustavo, você iria ajudar, né?
- O que você quer dizer por "ajudar"?
- Ajudar a bater neles!
- Hum... na verdade eu iria sair correndo pedindo por socorro. Em outra palavras, sim, eu iria ajudar.

Como amigo de longa data, ele estava certo que era uma brincadeira, e continuou:
- Ah, você sempre diz que primeiro vem a família e depois os amigos! Sabia que você iria ajudar.
- É você que está dizendo, não eu.

Não é certo, mas grande parte dos seus amigos irão encarar sua sinceridade como uma piada. Em outra ocasião, logo que cheguei no colégio, tomei conhecimento de um trabalho que deveria ser entregue no dia e feito em dupla. Para minha surpresa, um amigo havia feito o trabalho e colocado meu nome nele. Às pressas, tratei de agradecê-lo. Ele disse:
- Ah, não foi nada. Eu tenho certeza que faria o mesmo por mim.
- Bom... eu não tenho tanta certeza, mas obrigado ainda assim.

Ao contrário das situações aonde a sinceridade funciona como piada, em outras você precisa ser sincero para não deixar um clima ruim. Durante uma festa entre amigos e conhecidos, uma recém-conhecida me pergunta:
- Você está me cantando?
- Na verdade, agora estou. Há mais coisas interessantes em você do que eu imaginava.

Ela abre um sorriso e pergunta:
- Ah, é? Como você me imaginava?
- Não vamos estragar o momento.

Em certos momentos a sinceridade é perfeita. Durante uma aula de matemática no cursinho, indago minha dúvida à outra aluna, que respondeu com bom humor e um pouco envergonhada. Perguntei:
- Você pode me dizer por que aquela fatoração está certa e esta não?
- Hum... eu acho que é porque aquela é do professor. Por que está me perguntando? Eu não sei nada de matemática, desculpa.
- De fato eu estou começando a me perguntar sobre isso agora.

Por outro lado, há momentos em que a sinceridade deve ser descartada. Mesmo que sua namorada esteja um pouco gordinha quando te perguntar, não diga que ela está gigante. Insistir na idéia de que estará fazendo o bem para ela sendo sincero só irá gerar uma guerra. É o mesmo que chegar em casa e dizer:
- Mãe, pai... esse é o meu novo amigo que eu trouxe pra almoçar, uma pessoa do bem... Champinha.
Enfim, embora a sinceridade seja encarada como piada na maioria das vezes, ela deve respeitar a sua situação pessoal e sobretudo a dos demais. Ser conveniente é essencial para não dar a entender que está ofendendo a outra pessoa.

Aquele com o Tiro de Guerra


O décimo oitavo aniversário de um homem não é exatamente o aniversário mais feliz. Assim que alcança a maioridade passa a ser considerado capaz para os atos da vida pública. Em contrapartida, para efeitos militares, a minoridade cessa aos 17 anos, quando jovens podem ser alistados nas forças armadas.
Antes de começar a criar expectativas ou frustrações, a primeira obrigação é se alistar na Junta de Serviço Militar. Indubitavelmente grande parte do pessoal quer ser dispensado, no entanto muitos começam a criar cenários e planejar antecipadamente respostas e justificativas. Todas as habilidades aprendidas quando era mais novo para entrar nas festas de quinze anos serão necessárias. Na Junta, o oficial me perguntou:
- Você trabalha, tem algum problema, etc?
- Hum... eu sou ajudante de leiteiro, levanto as quatro da madrugada, sustento minha mãe e... não tenho um pé.
- Deixa eu ver.
- Meu pé? Não dá, poxa... eu disse que eu não tenho.
- Ok, dispensado.

Esse era o meu cenário e meu plano antecipado, contudo só pude dizer que não trabalhava e não tinha nenhum problema. Inevitavelmente teria que voltar em outra data estipulada.
A partir da segunda vez, a não ser que seja dispensado, encontrará problemas. Caso uma nova data seja dada, você deverá se apresentar à seleção. Da mesma maneira que chifre é característica de boi, o exame médico é característica da seleção. Em pequenos grupos, todos são levados a uma sala. A princípio todos ficam de cueca aguardando uma nova instrução. Logo após um sargento nos avisa para abaixar a cueca e assoprar o dorso do punho. Provavelmente é nessa hora que você nota que não é o único nervoso e ansioso. Uma pequena parte dos homens começam a ter visão turva, erram as costas do punho e finalmente imitam sons de gases. É mais fácil encontrar uma sinfonia ali do que numa sala de ginástica da terceira idade.
Não é certo, mas uma risada é quase impossível nessa sala. Embora seja um humor camuflado, ainda que tenha perdido o momento, talvez tenha outra chance. No mesmo grupo em que me encontrava, um homossexual também foi chamado. Com cabelo comprido, calça jeans justa e uma blusa “baby look”, o sargento o separou do grupo, apontando um lugar atrás de um armário:
- Guerreiro! Por favor, fique nesse canto de costas, guerreiro. Não quero ver você virar, guerreiro...
Estar apto na seleção significa uma nova visita, desta vez para uma entrevista e, por fim, a matrícula. Inquestionavelmente é a última oportunidade para ser dispensado. Em virtude de tal risco, qualquer tentativa vale a pena. Dois amigos estiveram na última fase comigo. Enquanto um deles não tinha nenhuma audição de um ouvido, o outro se fazia de quase surdo dos dois. Para o primeiro, correu tudo bem. O segundo, apesar de uma ótima encenação, caiu na armadilha do sargento. Enquanto caminhava para fora da sala, o superior gritou:
- Feche a porta, por favor.
Você nunca acredita que um ser humano com tamanha capacidade em artes cênicas seria capaz de voltar. Ele não apenas fechou a porta como também seria capaz de dizer “quase não escutei” com o maior sorriso, se eu estivesse no corpo dele.
A fim de te ajudar, alguns amigos irão opinar em suas histórias e inventar outras pra você. Conversando com um amigo que já havia sido dispensado, ele começou:
- Se nada der certo, você pode se fingir de bicha. Eles vão te dispensar.
Com efeito, outro amigo aparece na conversa, já tirando sarro:
- Você não iria fazer isso só pra ser dispensado, iria? Você ia ser chamado de bicha sempre.
- Provavelmente não. Bom, se eu fosse dispensado eu até poderia ser chamado de bicha. Depois da guerra eu ainda seria uma bicha com duas pernas.

Em síntese, a minoridade cessa um pouco mais cedo para os jovens do sexo masculino para efeitos militares. Uma longa trajetória até ser dispensado é traçada e um objetivo, normalmente comum à maioria, é lançado: ser dispensado.