Aquele que ninguém dorme


O ser humano precisa dormir, em média, oito horas por dia. Esse é o tempo estimado para que o corpo e a mente descansem. Alguns processos metabólicos também são realizados neste período. Contudo, privar-se desse sono é prejudicial.
Receber parentes em casa é um momento agradável. Você mata a saudade, conta histórias e se despede. Embora essa seja a fórmula genérica para receber visita dos familiares distantes, nem sempre a história é assim. Por fim, alguns deles acabam ficando para dormir. Certamente é nestes momentos que descobrimos o mal de se ter duas camas num quarto. Alguém em algum dia vai ocupar a outra cama de solteiro.
A fim de não incomodar o sono do meu parente, entro no quarto e me deito sem acender a luz. Nesse meio tempo, suas vias respiratórias se afinavam para dar início a sinfonia à seguir. Em questão de segundos o ronco começou. Aos poucos a ressonância se tornou gradativamente maior.
Como não conseguia dormir, comecei a virar várias vezes na cama. Assim talvez ficasse cansado demais e dormiria sem perceber. Engano meu. O ronco não parava. Finalmente decidi tossir. Nada. Tossi mais alto ainda e nada. Provavelmente os músculos do meu tórax já estavam mais relaxados que o dele e nada. Voltei então a virar na cama. Fiz várias posições diferentes e pronto. O que tinha acabado de conseguir era uma cãibra. A contração foi instantânea e dolorosa.
Inesperadamente o ronco se cessa. Imediatamente soltei suavemente um suspiro e pensei que já poderia dormir em paz. Fechei os olhos e em seguida os abri correndo. O susto aumentou rapidamente meus batimentos cardíacos. Ele sem dúvida virou o corpo correndo e conseqüentemente fez muito barulho. Só podia estar sonhando. Assim que levantou e a sombra se dirigiu para o banheiro tive certeza. A oportunidade se fez e comentei:
- Ahh... estava sonhando com um monstro que roncava, assustou e vai no banheiro, né? Sei como é...
Ocasionalmente algo novo começa. Decerto, ainda no clima da música roncada, ele começa a fazer música com um momento tão minucioso e em forma circular. Hora eu escutava algo na cerâmica do vaso, hora na água. Pensei que só podia ser pegadinha.
O café da manhã já estava pronto quando acordei. De mansinho cheguei a cozinha. Minha mãe me recebe:
- Bom dia! Nossa, olha pra mim. O que foi, não dormiu bem a noite?
- Não... não mesmo...
- Porquê?
- Hum... deve ter sido por causa do bipe do relógio das duas, das três, das cinco e das seis da manhã. Ou, ai meu Deus! Talvez seja por causa do nosso parente que não parava de roncar e fazer musiquinha no banheiro.

Nem sempre dormir é fácil. Daí vem a insônia, as desordens do sono, uma série de eventualidades infelizes que prejudicam esse momento tão precioso.

Aquele do humor silencioso


É verdade que o ser humano é coagido a dar risada quando não pode. O humor, subjetivo como só nós sabemos, impede-nos igualmente de notar o momento que não deveríamos cair na gargalhada. Por exemplo: num grupo de amigos uma pessoa acaba de contar uma piada. Ninguém acha engraçado. Imediatamente serei o primeiro a rir. O silêncio frustra o final da piada. O silêncio e a mágica da situação o obriga a rir.
Há pouco tempo atrás fui comemorar o aniversário de um amigo. Logo após o jantar que foi servido na festa, a sobremesa foi colocada à mesa. O sorvete estava com uma aparência ótima. A calda de chocolate ainda quente, cheirava bem e deixava todos em alerta. A fila se formou às pressas e em segundos todos estavam com um prato na mão.
Como de costume, de mansinho furei a fila. Fiquei atrás de um amigo que começara a se servir e ao lado de outra menina. A colher para tirar o sorvete tinha uma espécie de alavanca. Bastava apertar para a bola de sorvete cair por completa.
Sem dúvida meu amigo se mostrava com problemas para tirar o sorvete. De fato não só não estava conseguindo formar uma bola como também começou a ficar nervoso. Para compensar a dificuldade ele começou a bater no sorvete. Essa surra se repetiu por cinco ou seis vezes até que olhei para o lado. A menina à minha esquerda limpava sutilmente a blusa branca com pontos distintos de chocolate preto. Decerto enquanto ria, meu amigo aumentou ainda mais a força com que batia. Notei principalmente pelo fato de não parar de aparecer novas gotas de chocolate nela. Agora no rosto também.
Recentemente nos encontramos noutro lugar, famoso na cidade pelo espetinho. Uma das meninas faz seu pedido e logo após o recebe na mesa. O espetinho estava no prato acompanhado com duas mandiocas cozidas, uma porção de farinha, além do garfo e faca.
Antes mesmo que alguém pudesse lhe ensinar um macete para tirar com facilidade a carne do espetinho, ela já estava bolando seu espetáculo circense. Como quem arranca pedaço de borracha de algum lugar, ela conseguiu fazer um estilingue com a carne. Contudo, o que ela atirou mesmo foi farinha. E lá estava meu amigo do outro lado da mesa tirando farinha do cabelo da namorada.
Ainda no bar, um rapaz na mesa de trás não parava de soltar a fumaça do cigarro na minha direção. Irritado com isso, situação que já prolongava por breves quarenta minutos – devia estar fumando uma anaconda de nicotina – pensei numa travessura. Coloquei sal na mão e atirei para trás.
Uma outra menina na mesa viu e se identificou com a minha causa. Começou atirando palitos de dente quebrados nele. A porção de peixe frito que estava na frente da flanco atiradora vira arma. Ela pega uma pequena parte bastante gordurosa e mira. Se gordura fosse comburente, o fumante pegaria fogo. Continua mirando, tapa um olho e finalmente me acerta.
- Poxa, se era para me acertar não precisava fazer esse suspense todo, né?
Ela ri. Pouco depois vou embora e ao chegar em casa coloco minha blusa num cesto separado. Só faltava aparecer formiga de repente em casa e no dia seguinte ter um buraco na minha camisa. E não é que já me aconteceu? Pelo menos não com essa camisa, dessa vez.

Aquele dos jogos e trapaças


Quando criança não havia um jogo sequer que eu não soubesse como trapacear. Da mesma maneira que contava uma verdade a alguém, contava também uma regra nova que me desse ampla liberdade de jogo. Como resultado eu ganhava todos os jogos.
Em 1996 a moda era jogar International Superstar Soccer no Super Nintendo. Meu irmão mais velho reunia os amigos em casa e quem perdesse passava o controle. Eu sempre estava na fila. Quando chegava minha vez, era sempre vitória. Podia ser como fosse ou como os amigos do meu irmão preferiam chamar: jogo roubado, que eu era ladrão, etc. Isso tudo por quê quando levava um gol chorava e, além disso, desconectava o controle do meu adversário do console. Às pressas passava a vontade de chorar e o jogo finalizava a meu favor. Por fim, ganhando todas as partidas, me levantava e dizia que estava sem graça ganhar de todo mundo. Além de achar o jogo fácil, eu também conseguia ser um chato.
Já no ano 2000, descobri as cartas de Magic. Para não comprar sozinho e não ter com quem jogar depois, influenciei alguns amigos a fazerem o mesmo. Em pouco todos nós já tínhamos um “deck”, um conjunto de cartas pronto para jogar.
Antes que pudesse perceber eu já tinha minhas próprias regras acerca do jogo. Por exemplo: uma das minhas cartas era uma mágica instantânea. A descrição deixava claro que o oponente que tivesse acabado de baixar um encantamento ou mágica, deveria mandá-la ao grimório ou cemitério, como também era conhecido. Não é certo se com todas as pessoas que cheguei a jogar, elas desconheciam o significado de instantânea. Ocasionalmente essa minha carta sempre ficava na mesa e era, na minha regra, indestrutível. Era sorte de quem descesse uma dessas primeiro. Ou não. Isso por quê nem todas as regras que valiam para mim valiam para os outros. Essa era a primeira regra. Com toda certeza, alguém tem dúvida de que eu sempre ganhava?
Eventualmente só vim a me tornar realmente grande nas trapaças com o famoso Banco Imobiliário. Nessa época minha fama já era grande, o que impedia meus amigos de me nomearem como banqueiro. Contudo eu não precisava controlar o dinheiro para roubar.
Durante o jogo havia sempre uma televisão ligada. Ela tomava a atenção dos jogadores entre um lançamento de dados e outro. Nesse meio tempo, a almofada que sempre estava por perto, se enchia de dinheiro. O zíper era silencioso ao abrir e não precisava necessariamente ser fechado. Dessa forma eu abria meu próprio banco.
Apesar de toda a aventura, depois do ápice segue o declínio. Fui pego trapaceando e minha mãe ficou sabendo pelos meus amigos. Por muito tempo ela me ensinou sobre o espírito esportivo.
Hoje tenho a responsabilidade de entrar num jogo para me divertir com todos. A idéia de vencer e ganhar é subjetiva, uma vez que depende do ponto de vista para aceitar tudo que está a sua volta, não só como jogo, mas como um todo.

Aquele da conversa oxigenada


Muito se fala a respeito do QI das loiras. Como resultado de tantos comentários maliciosos, algumas delas acreditam mesmo não serem tão inteligentes. Logo, conversar com uma loira é sinônimo de ouvir uma gafe ou outra.
Enquanto conversava com uma convidada, perto do horário do café da tarde, a chamo para se juntar ao lanche:
- Estou com fome e vejo que você também está. Gostaria de comer o que? Tem pão caseiro e está ótimo.
Às pressas, como quem grita por socorro, a resposta:
- Pão de quem?!
Face a isto e ainda faminto, curo minha dor em silêncio.
Além de receber visitas, em outras ocasiões quando domino relativamente bem alguma matéria, me disponho a ajudar outras pessoas.
Assim me coloco como professor numa situação de biologia:
- Os ovários são as gônadas femininas responsáveis por produzir o estrógeno e, se não me engano de nome, progesterona também, que são hormônios sexuais femi...
- Ah! Os homens também têm, não é?
- Hum... Claro... só um minuto que eu estou com cólica...

Por outro lado, se a biologia não evolui, talvez a química como exatas nos leve a algum lugar. Ou não. Depressa, a loira interrompe meu raciocínio e o dela também:
- Espera. Por que mesmo que o C vale zero?
- Pronto... já deu! Não é C igual a zero. É C dupla O!

Em suma, se pessoalmente já é complicado fugir das situações de rata, imagine duas loiras se interagindo no MSN:
- Me passa as fotos de hoje?
- Sim. Só vou procurar o cabo da câmera.
- Tudo bem. Estou de bobs...
- Que gracinha!
- Nossa, você devia me xingar...

Ocasionalmente elas se encontram depois. Dessa forma, uma conversa que já era bem complicada, tende a se tornar pior:
- Eu tenho festa sexta-feira...
- Como? Mas agüenta até sexta?
- O que?
- Ué... o cabelo...
- Porquê?
- Bobs não agüenta até sexta.
- Ixi... a gente não está se entendendo. Eu estava de bobs: bobeira. Não bobs... bobs de cabelo!

Quem sabe o que se passa afinal nessas interações sociais? Decerto não passa muita coisa além do essencial e algumas metáforas alternativas.

Aquele no hemocentro


Doar sangue é sem dúvida uma prova do senso de compaixão humano. O altruísmo que prevalece indiretamente nas pessoas que parecem não se importarem com nada a sua volta. Por outro lado é um momento de distorção visual, fome incontrolável e chateação das perguntas de rotina. De fato é o preço por sermos um pouco altruístas.
Sem dúvida deixar a barba por fazer, usar boné e algumas pulseiras, vão lhe dar algum trabalho na hora das perguntas de rotina. Eis que um amigo chega para doar sangue.
- Bom dia, senhor. Vai doar sangue?
Pausa: em um hemocentro, normalmente vamos fazer o que? Continua...
- Antes de poder se dirigir a sala, terei que te fazer algumas perguntas de rotina.
Meu amigo concorda e responde com boa vontade as mais variadas perguntas intrusivas. Quantos parceiros sexuais tem, alergias, tipo sanguíneo, alimentação, etc.
Imediatamente uma pergunta nos traz a uma realidade comum no Brasil: o preconceito. Julgando pela aparência, a senhorita que fazia as perguntas de rotina se dirige ao meu amigo com a última pergunta:
- O senhor é usuário de drogas?
- Não.
- Tem certeza?
- Ué... tenho.
- Senhor, nós vamos colocar uma amostra de sangue num dos nossos aparelhos. Caso seja usuário de drogas, isso pode vir a ser constrangedor para você. Não é usuário de drogas?

Cansado de afirmar sua posição real de um trabalhador iniciante que agora mal tem tempo para fazer a barba, tenta uma resposta diferente:
- Olha, moça... não sou usuário de drogas. Pode colocar minha amostra na máquina e vai ver só. Mas agora, vem cá: se você está querendo saber isso pra gente poder enrolar alguma coisa ali, por mim de boa. Eu não tenho preconceito nenhum!
Inesperadamente a moça se comove. Fica vermelha, roxa e finalmente volta a cor normal.
Sem dúvida meu amigo não irá doar mais sangue lá.

Aquele dos presentes de namoro


Com toda certeza os presentes são o que mais marcam as etapas de um namoro. O primeiro mês juntos não é comemorado apenas para lembrar o tempo, mas para se ganhar presente. E essas datas, assim como o dia dos namorados, são feitas para as mulheres. Uma mulher pode chegar de mãos abanando, no máximo agitando-as num sinal de “quero um abraço e parabéns, meu amor”. Já um homem não pode fazer isso de maneira alguma. Se acontecer, um contrato é estabelecido momentaneamente: ele entra com a nádega e a mulher com o pé. Fim do relacionamento.
Contudo, salvo não aconteça isso, caímos no paradoxo das mensagens subliminares dos presentes que recebemos. E é verdade que todo presente tem um significado. As pessoas compram pensando no que ela precisa paralelamente.
Na hora de dar o presente:
- Ei, querida, parabéns!
- Ahh! Que lindo, amor. Obrigado. Não precisava.
- Claro que precisava... abre e diz se gosta.
- Uhum...
- Então, o que achou?
- O que eu achei? Achei que você se acostumou demais ao me ver com as minhas roupas. É por isso que está me dando um vestido? Responde: é por isso que está me dando um vestido?
- Claro que não! Pra falar a verdade olhei o vestido e achei que ficaria legal em você, não que ...
- Então eu não fico bem nos meus vestidos?

Provavelmente você fica com aquela cara de “o que essa menina usou?” Além disso, deve-se um desconto à ponto de perceber na expressão da outra pessoa se ela está ou não na TPM.
Numa outra ocasião, um outro presente e uma outra pessoa:
- Parabéns!
- Obrigado, querido! Achei que não fosse comprar nada pra mim!
- Achou mesmo? Sem cinismo... sabia que eu iria te trazer algo. Abre.
- Nossa! Um perfume da Dolce & Gabbana?
- É. Por quê?
- Eu por acaso não cheiro bem? Meu perfume é doce demais ou te deixa com o estômago embrulhado?
- Como assim? Embrulhado é como estava seu presente, não como fica meu estômago quando sinto seu perfume antigo. Achei que pudesse ter outro.

Tendo em vista esse tipo de observação de significados dos presentes, na primeira ocasião que ganhei um presente também pedi explicações:
- Como assim? Um porta retrato com nossa fotografia? Você diz que ficamos bem assim? Quer dizer que somos melhores em foto?
Eventualmente feito isso, ou a relação melhora ou termina de vez.
Entretanto, a mensagem subliminar dos presentes não passam de uma quadro surrealista que acontece em raras ocasiões. Não vamos generalizar a situação e sempre pensar nela da pior maneira, certo?